Angela havia se decidido pelo agnosticismo na idade adulta. Antes disto, passara a infância, adolescência e início da juventude dentro da igreja que toda a sua família frequentava.

Após muita reflexão e, por que não dizer, uma tomada hercúlea de coragem e honestidade, chegara à conclusão que não queria passar a vida em uma farsa. Cada hora em que seu corpo físico passava dentro de um dos cultos religiosos era uma adaga para sua mente e seu espírito. Queria confrontar o sacerdote que dizia coisas tão maléficas da forma mais espúria possível: fazendo-as parecerem boas. Queria questionar as pessoas a sua volta a respeito do porque ficavam lá, paradas, enquanto tudo aquilo acontecia a sua volta.

Oras, o triunfo do Mal estava no silêncio do Bem.557082_480672035296717_1754534058_n

Mas Angela já não acredita em Bem e em Mal, assim escritos, com inicial maiúscula. Estava muito claro em sua mente que a perspectiva de quem julga tem tudo com o que é considerado malévolo ou benéfico. Pode ser uma questão de caráter, cultura, social, econômico ou psíquico… ou tudo junto.

O único mal verdadeiro era a falta de empatia com os seres vivos. Aquele que aceita a dor alheia, a desdenha e até a deseja está padecendo de um mal. Não importa no que ele acredita, ou no que acha que acredita. Pelo menos, assim parecia a Angela naquele momento. Aceitar rever as coisas e, especialmente, o pensamento, era outra das premissas pelas quais vivia agora.

Ela havia se afastado da família. Não porque não os amasse. Só não os suportava.

A cada novo encontro, um novo tipo de preconceito escorria pelas bocas dos seus coligados genéticos e afins. Não raro, tinham acabado de voltar de mais de seus encontros semanais da doutrina “piedosa” a qual seguiam. A cada frase, a cada palavra, desdiziam o que seu salvador (supostamente) havia pregado. A cada sopro de suas respirações, uma linha do livro sagrado era apagado.

ateo-semejanzaNão aquelas linhas que lhes eram favoráveis, é claro. Geralmente, as mais cruéis e sanguinárias, as mais tribalistas, patriarcais, materialistas, revanchistas, vingativas. “Bandido bom, como eu sempre digo, é bandido morto”; “E a vítimas? Ninguém pensa nas vítimas? Bando de hipócritas, esses defensores de direitos humanos…”

“Por que eu tive fome e me destes de comer; estive preso e fostes me visitar…”.

Vai ver que não entendera direito o troço todo. Vai ver, os únicos presos que valiam a pena eram os da época de Jesus…

Mas as passagens bíblicas já não tinham importância para Angela. Suas contradições e omissões já eram prova suficientes de que nenhum ser transcendental, atemporal e único as escrevera. Tinham cem por cento da digital e do DNA humanos nelas. Não eram mais reais para do que a Torá, o Alcorão ou os Vedas: parcialmente aproveitáveis, levemente respeitáveis pelos séculos que carregavam.

Na família de Angela, ninguém a hostilizava abertamente. Quando se encontravam, a tratavam como sempre. O problema eram as crianças.

As crianças não sabem esconder hostilidade. Veja-se bem: não é que não consigam mentir ou fingir: apenas não estão equipadas com aquela auto-compassividade guardada no centro límbico, regada de “eu sou superior” (traduzido biblicamente pelo: “eles não sabem o que fazem”) que os adultos têm. Então, quando Angela sorria para as crianças de seus parentes, eles imediatamente faziam cara feia para ela e tratavam de ignorá-la.

395603_439589989467556_2098175601_nAquilo dizia tudo sobre o que seus pais falavam dela.

Angela tentou durante anos explicar que o fato de não se importar se Deus existia ou não (a diferença entre ateísmo e agnosticismo também era uma tortura para ser entendida), não afetava a essência de seu ser, que era a mesma pessoa, só que não se importava com os ditames religiosos. Então, de “estranha” passara a ser “egoísta”. Tudo bem você ser estranha: vai ser alvo de gozação, mas é uma esquisitinha inofensiva (acredita em Deus, é da nossa turma, não é?). Mas… sem Deus…  você deve ser ruim.

(Oras, Deus é a garantia da bondade em uma pessoa, não é? Afinal, nunca um crente fez mal a ninguém… As Cruzadas, A Inquisição e Hittler foram mero incidentes a serem esquecidos).

tumblr_ma8sepEm301r04ii2o1_500Os familiares crentes de Angela eram os que mais odiavam a Humanidade. Pareciam seguir um código de conduta tribalista, onde todos que não fossem de seu clã eram ameaças em potencial. Então, ela não sabia para onde tinha ido parar aquela “bondade em Deus” que eles tanto falavam.

Suas crianças também pouco aparentavam crescer melhores. Poderia postivamente afirmar que estavam mais vaidosas, superficiais e egoístas que a geração anterior. É claro, nos dias atuais havia muitas fotos de biquinho ou poses de muque/cara feia para postar no Facebook. Não restara tempo para coisas como pensar e empatia. “Papai do céu sempre existiu e mora no meu coração”. É tudo o que têm a dizer sobre o mundo.

Parecia a Angela que a raça humana iria se extinguir logo. No lugar dela iria surgir uma espécie nova de bicudos de rosto vincado, que tranquilamente passariam por um outro morto de fome, sem um pingo de remorso. Uma raça assim, refletia Angela, também pereceria logo.

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