Dia: 09 de novembro de 2012. Local: Feira do Livro, Porto Alegre. Ocasião: lançamento do primeiro romance da Nika. Distância a percorrer: uns trezentos quilômetros. Meio de transporte: automóvel. Condições climáticas: sol, sem nuvens, com temperaturas que variam de “quente pra dedéu” a um “calor dos infernos”.Check-in da mala. Toalha: confere. Itens de higiene pessoal: confere. Roupa, pijama… confere. Calçados confortáveis: confere. Câmera fotográfica: confere. Celular: confere. Óculos de sol: confere. Bolsa, carteira, maquiagem, bloco de notas, caneta: confere. Colchões de ar: confere. Fechar a mala: confere. Minha mãe tirando tudo e colocando mil vezes mais arrumado: confere.

Check-in do carro. Quatro rodas e um volante: confere.

Fechei o porta-malas, depois de acomodar a bagagem e, de posse de minha indefectível bolsa, um último pensamento: “Peguei o anticoncepcional?”. Sabe como é… não quero correr o risco de uma concepção imaculada. Tudo bem que, da última vez, se deram ao trabalho de perguntar antes para a garota, mas melhor não arriscar.

GPS devidamente posicionado (tenho péssimo senso de direção), pus-me na estrada. Os primeiros cem quilômetros da viagem foram  um tédio, e só podia agradecer por estar indo para o sul e não para o norte – um verdadeiro nó tinha se formado na região de Laguna, por causa das obras de duplicação da BR-101.

A coisa vai mudando de figura depois que se atravessa a divida entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. Em alguns quilômetros, as rodovias vão se alargando até desembocar no correspondente ao paraíso para os motoristas barriga-verdes: a Freeway. Quatro pistas que não acabam mais. Adeus caminhões! Adeus filas! Velocidade máxima: 110 km/h.

A despeito da comparação paradisíaca acima, Highway to Hell, do AC/DC, começou a tocar em minha cabeça enquanto dirigia (uma cabeça que estava usando óculos de sol enormes, a propósito, no estilo apropriado para a cena, enquanto cantarolava e balançava).

Não me entendam mal. Não sou fã de alta velocidade e não acho nada engraçado por a sua vida e das outras em risco. Mas… até os catarinenses babam, sonhando com algo assim do lado de cá da fronteira. E, convenhamos, não é pouca coisa, considerando que o típico nativo de Santa Catarina prefere comer o próprio braço a admitir que os gaúchos são ou possuem algo melhor.

Faltando uma hora e meia para chegar ao destino – ia passar primeiro na casa da Lica, em Esteio-, a própria me liga:

Belzinha, amada, onde é que tu tás? – A voz cantada de Lica soa pelo alto-falante do carro (catarinenses falam cantando também: mas no ritmo de uma metralhadora, como se perigasse o mundo acabar antes da gente terminar a frase).

– Errr… – olho para o visor do GPS, em busca de orientação. – Falta mais ou menos uma hora e meia para chegar em Esteio, Lica. – Eu realmente não tinha mínima ideia de qual cidade estava cruzando. Meu recente “descoladismo” murchou um pouco.

Não, então faz assim: vai direto pro centro de Porto Alegre e a gente almoça todo mundo junto lá. Senão não vai dar tempo.

– Ok. Mas me dá um nome de rua pra eu programar no GPS.

Deixa eu ver… Marca a Mauá, que vai sair ali pertinho do rio. – Lica está convicta que o Guaíba não pode ser uma lagoa, já que navios entram e saem dele. “Imaginem só”, diz ela, “o navio tá aqui e, de repente… ups! Cria pernas e pula pro outro lado? Tá bom!”. – E tem um monte de estacionamento ali.

– Certo. A gente se vê lá, então.

Estacionei o carro no acostamento (“refúgio”, para os gaúchos) e liguei o alerta. Não tinha certeza, mas parecia que algum instrutor meu da época da auto-escola havia dito que isto era o mais seguro a fazer. Digitei “Avenida Mauá” no GPS. Não sei se digitei errado, mas ele não achou. Liguei novamente para a Lica.

Alô?

– Lica, eu não achei…

Oi, Belzinha! – Só então reconheci a voz da Sônia, nossa amiga do Paraná.

– Sôoooooooooooooo ! – Vieram gritinhos e risinhos típicos de duas amigas mulheres que não se vêem há algum tempo. Então, mais “controlada”, continuei: – Sô, preciso de outro nome de rua, porque a Mauá meu GPS não achou.

A Bel quer outro nome de rua. – Ouço Sônia explicar do outro lado da linha.

Depois de algum tempo, ela me repassa um. Não acho também. Outro. Nada. Mais outro: também não.

Hã… Tenta a Sete de Setembro, a Lica tá dizendo.

Tento.

– Não achou também.

Vem cá… – Me diz Sônia, em um tom em que consigo enxergar meio sorriso, meio exasperação – Esse teu GPS não é muito brasileiro, é? Porque, pra não achar a rua Sete de Setembro!

Fiquei em silêncio, mas tive que concordar com Sônia. Por outro lado, se considerarmos que, nas cidades de Santa Catarina, a rua Floriano Peixoto era, na maioria das vezes – e pelas razões históricas óbvias – uma ruazinha escura e esquecida por Deus, não era impossível. É claro que não podia ser o caso da Avenida Mauá e, por isso, tentei de novo:

– Consegui! – Exclamei, aliviada.

Tenho que explicar uma coisa. Durante todo esse tempo, eu estava procurando aquelas benditas ruas no GPS daquele meu jeitinho. Os que me conhecem rapidamente vão reconhecer isso como sendo aquela forma em que fico totalmente absorvida em uma só coisa e esqueço do resto do mundo ao redor. Então, assim que o problema urgentíssimo da localização terminou, e eu “voltei pro mundo”, meus olhos foram atraídos por uma luz que piscava no meu retrovisor.

Achou? – Pergunta a voz sorridente e aliviada de Sônia.

– Achei sim… Mas tenho que desligar agora, a polícia tá atrás de mim!

O QUÊ, O QUÊ, O QUÊ?!?!

Tuuu, tuuu, tuuu (desliguei).

Joguei o GPS pro lado e, engolindo em seco, voltei-me para o policial que já havia descido da viatura (cuja luz de sirene estava acesa) e estava em pé, ao lado da minha porta.

“Calma, Isabel, muita calma”, disse para mim mesma, armando o meu melhor sorriso, “e, pelo amor de Deus… PAREÇA SÓBRIA!”.

Porque vocês sabem, é como aquela história da mulher de Cesar: não basta estar sóbria, mas sim parecer sóbria (claro que com a mulher de Cesar era a honestidade, mas vocês entenderam). E, às vezes, não sei porque, as pessoas não consideram a mim e aos meus amigos lá muito normais (Harry Potter? Isso não é coisa de criança?).

Não. É. Coisa. De. Criança.

– Tudo bem? – Me pergunta o policial por trás de seus óculos espelhados. Aquilo me lembrou Highway to Hell e eu realmente me senti o ser mais desprovido de “descolação” (ou seja lá como chamam).

– Está sim. Eu só parei para pedir orientação para minha amiga – apontei para o GPS – e liguei o alerta por precaução – rezei para que fosse isso que chamou a atenção deles e, novamente, me perguntei se era este o procedimento-padrão em rodovias de alta velocidade (será que receberia uma multa por causa do alerta?) – mas já estou indo. Obrigada. – Acrescentei, já fechando a porta.

Concluí que estava tudo bem, pois o policial assentiu com a cabeça e voltou pra viatura, decerto pensando: “catarinas!” (por mais que se invista na educação dos gaúchos, eles parecem ter desenvolvido a incapacidade de aprender que quem nasce em Santa Catarina é catarinense, e não “catarina”).

Do outro lado da linha, enquanto isso – conforme me contou a própria Sônia depois -, Lica perguntou, despreocupadamente:

– A Bel achou a rua?

– Achou sim… Mas a polícia tava atrás dela.

– AI MEU DEUS! Vamos ter que tirar a Belzinha da delegacia!

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