Um livro deve fazer o leitor sonhar acordado. Deixá-lo ruminando palavras e cenas horas depois de o ter fechado. Fazer sua ideia aparecer, ir e vir – ou simplesmente não sair da cabeça. Provocar. Causar choque, ternura, medo, indignação, admiração ou qualquer outro sentimento que não seja apatia (para os que querem apatia, recomendo um Reality Show).

Um livro é adrenalina injetada direto na imaginação.

Já um bom escritor conversa com o seu leitor sobre os fatos narrados, com a mesma naturalidade com que fala aos seus amigos. O grande escritor transporta-o para um outro tempo e lugar, aprisiona-o com o encantamento de suas palavras. É o ritmo da narrativa, a cadência dos acontecimentos sendo apresentada não só aos olhos, mas ao corpo e à mente de quem está decodificando a mensagem.

É assim que eu vejo a narrativa de Territórios Invisíveis, de Nikelen Witter. O ritimo do mistério, seguido do humor, do suspense, da emoção. Definitivamente, não é um samba de uma nota só.

Acho difícil alguém ler o primeiro capítulo e não ser “apanhado” na rede bem tecida do texto de Nikelen. O clima sombrio e misterioso de um verão de muito tempo atrás abrem a história. É possível sentir o vento quente soprando entre as linhas e o eco dos passos apressados dos personagens naquele chão de pedra de outrora, rumo ao que, segundo eles, é algo terrível que estão prestes a cometer.

Anos depois, aquele verão é conectado a um dia abafado de março da época atual. O barulho aqui é das páginas viradas de um antigo caderno de anotações, que uma menina folheia, sem realmente ler. Quem é ela? Que relação teria com aquelas pessoas de cem anos atrás?

Para os de mente irrequieta, já seria um prato cheio. Mas o livro vai além, passando pelas mais variadas personagens que formam o coro principal desta sinfonia que são (juntamente com os leitores) carregados para o centro do mistério, num cenário de mitologia, história e… humanidade. Enfim, enxergando os territórios que só estão invisíveis para quem se nega a ver o que está bem diante do seu nariz.

Enfim, a narrativa de um grande escritor.

Temo não ser objetiva quando se trata de Nikelen, da forma como não o somos ao emitir opinião sobre o trabalho de alguém próximo. Talvez, por isto mesmo, tenha demorado tanto para me manifestar, por querer dar minha opinião mais cristalina (sei que a autora não desejaria menos do que isto). E, minha opinião, objetiva ou não (como realmente saber? Qual é a linha divisória?), é que Territórios Invisíveis é um livro para se manter na estante de casa por gerações.

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