Nos últimos dias que antecederam o fechamento do Cadastro de Eleitores deste ano (que ocorreu em 10 de maio), a loucura tomou conta dos cartórios eleitorais em todo o país. Pode-se descrever o problema usando-se as palavras de uma jornalista de um jornal local: o brasileiro não pode ser acusado de não cumprir as tradições culturais da nação (traduzindo-se: filas e mais filas de pessoas que, é claro, deixaram para a última hora fazer o primeiro título, transferir ou alterar dados cadastrais).

Éramos três pessoas atendendo (ou seja, todo o pessoal que dispúnhamos). Uma fila que se estendia pela porta afora a se perder de vista. Já eram horas atendendo sem cessar, trabalhando nos últimos dias desde as nove da manhã, em regime de plantão. Mesmo com o esquema de triagem dos eleitores – ou seja: fila para pegar a fila! – o ritmo era insano. E as senhas já ultrapassavam há muito os três dígitos.

O sol de fim de tarde resolveu bater em cheio no meu rosto – mas não devia deixar que algo tão ordinário como o sol cegante me atrapalhasse. Afinal, tinha que manter o foco no fato de que restavam mais duas horas até que as senhas parassem de ser distribuídas para que, só então, pudesse sonhar com uma sala se esvaziando.

Eis que, no meio de um atendimento, uma moça ignora a fila enorme, adentra o cartório e caminha direto para mim e diz, esbaforida:

– Moça, moça! Só uma informação!

Eu poderia responder que informações eram na outra fila. Parar o atendimento não era a atitude de eficiência e qualidade recomendada pelo TRE. Também pensei o quanto isto poderia irritar o eleitor sendo atendido naquele momento. Mas tive dó da moça. E o fato de ter me sensibilizado – depois de dias dos mais variados níveis de educação e (im)paciência do público – diz alguma coisa.

Arriscando o pescoço diante dos demais eleitores, disse:

– Pois não? – Que orgulho de mim! Mantive até a formalidade que nos ensinam dos cursos de qualificação.

Sempre afobada, a moça me responde:

– É que eu queria coisar o meu título!

Por dois segundos não consegui fazer mais nada além de piscar, confusa. Olhei rapidamente para o eleitor a minha frente e ele estava esboçando um sorriso. Provavelmente, foi isto que causou o próximo milagre do dia porque, em vez que perguntar se a moça poderia ser um pouquinho mais específica (como implorava o meu cérebro cansado), devolvi com um bem-humorado:

– Só coisar, ou coisar coisando?

A moça responde, claramente inocente da minha pilhéria e me derrubando:

– Não, só coisar.

Depois disto, sei que houve um diálogo. Uma série de perguntas da moça e as minhas respostas. Mas juro que meu cérebro as articulou no piloto automático, porque toda a atividade consciente estava concentrada em buscar saber o que diacho era “só coisar”.

A eleitora saiu, aparentemente satisfeita, suas dúvidas sanadas. Apesar de eu não ter ideia até hoje do que ela queria fazer. Olhei para o eleitor sentado a minha frente. Ele estava tentando sufocar uma gargalhada. Aposto que a expressão atônita em meu rosto devia ser hilária.

Voltei a atenção para o computador, a janela do ELO, sistema de dados dos eleitores do TSE, aberta. Entre as opções “alistar”, “revisar” e “transferir”, vi-me procurando “coisar”.

Só conferindo. Vai que…

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