O segundo domingo de agosto foi escolhido para homenagear os pais. A data será no próximo fim de semana e aproveitei para refletir sobre o que as figuras paternais da minha vida significaram para mim. Não se trata de Direito, nem de Literatura, ou de qualquer outro assunto que já tenha discutido neste blog. Mas nunca foi minha intenção limitar o alcance dos textos, já que o espaço funciona mais como um apanhado de todas as coisas que passam por esta minha cabecinha avoada.

É minha história. É sobre o que aprendi a respeito de paternidade e de sua presença na vida de uma pessoa. Neste sentido, três figuras masculinas tiveram grande impacto: meu pai, é claro, e meus dois avós. Os pater famílias do meu “clã”.

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Meu avô paterno se chamava Fernando. Nascido e criado em uma pequena cidadezinha praieira próxima de Laguna, era filho e neto de colonos agricultores da região. Sabia plantar, criar gado e pescar. Adorava pescar. Conheceu minha avó em uma “domingueira” e logo começaram a namorar. Casaram-se em julho de 1943. Apenas alguns meses depois, o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial e as convocações para o Exército começaram. Meu avô foi um dos convocados.

Ele não gostava de falar muito no assunto; pelo menos, era isto que me parecia. Acho que foi um período que o marcou muito, assombrando-o até o final da vida. O pouco que sei é que recebeu o treinamento de praxe e em seguida foi incorporado a um regimento. Não demorou para que meu avô fosse parar nas filas dos que estavam aguardando ser enviados para as frentes de batalha na Itália. Felizmente, seu comandante, logo que o viu, perguntou: “O que está fazendo aqui? Não é casado?”. “Sou sim”, respondeu meu avô. “Então volta pro final da fila”, ordenou o comandante.

E foi assim que meu avô foi se mantendo nos campos relativamente seguros do país. Ele foi destacado para permanecer em um dos diversos pontos de vigia no litoral – se o inimigo resolvesse retribuir a “visita” que as tropas brasileiras estavam fazendo em terras italianas, seria pela costa. Por isto o posto era considerado de alto risco. O tempo foi passando. Minha avó tinha dado a luz à primeira filha deles, sem que meu avô tivesse tido a oportunidade de conhecê-la. Escasseavam-se as chances de voltar para casa na mesma medida que a guerra prosseguia e os homens solteiros e sem filhos rareavam também.

Quando minha tia tinha cinco meses de idade, a guerra finalmente acabou. Meu avô foi dispensado e pôde voltar para casa. Retornou para a sua roça e lutou de sol a sol para sustentar a sua família com o que tirava da terra. Anos depois a família se mudou para a cidade de Criciúma, onde meu avô trabalhou nas minhas de carvão, arriscando a vida e a saúde naquele ambiente precário e insalubre. Raramente o ouvi falar sobre a guerra.

Em duas ocasiões tomei coragem para perguntar. Na primeira, por alguma razão os imigrantes italianos e alemães entraram na conversa, e eu lhe perguntei sobre o episódio de ódio aos colonos oriundos destes países ou seus descendentes. Meu avô falou da loucura que tomara conta de alguns a ponto de atirar pedras em estabelecimentos cujos donos fossem italianos ou alemães. E então, ele parou subitamente, como se o que ia dizer a seguir não fosse importante ou não valesse a pena ser dito. Não insisti.

A segunda vez aconteceu anos mais tarde e com ele muito debilitado pela doença degenerativa que lhe acometera no final da vida, mas ainda lúcido. Sentado em sua poltrona, em frente à televisão, e eu ao lado dele, no sofá, assistíamos as imagens de algum filme onde recrutas eram treinados para situações de guerra, arrastando-se na lama com fios de arame acima deles. Subitamente, ele meio resmungou, meio sussurrou, com evidente desprezo: “Isto não serve pra nada!”. Curiosa, perguntei: “O que, vô? A guerra ou o treinamento?”. Ele deu um meio sorriso e respondeu, categórico: “Os dois”.

Assim: “os doix”, com um quase chiado no final da palavra, como é comum nas comunidades colonizadas por açorianos, embora bem menos acentuado do que os que vemos no Rio de Janeiro e em Florianópolis.

Me arrependo de não ter sido mais presente na vida dele nos últimos anos da sua vida. Ele foi perdendo a memória recente, depois não reconhecia mais as pessoas e, finalmente, não falava mais. Achei que minha presença lá não seria de ajuda nenhuma. Talvez tenha errado. Talvez só o fato de estar lá significasse alguma coisa para ele.

Meu avô, o homem cujos silêncios falavam tão alto quanto os intermináveis rosários de reclamações que às vezes desfilava. Reclamações diante das quais minha avó convenientemente se tornava mais surda do que já era, e o desarmava com um simples “que foi?”, dito com uma inocência que todos nós desconfiamos ser mais falsa que nota de três reais. Meu avô, o homem misterioso e fechado que reclamava sorrindo da penca de netos que fazia bagunça ao redor da casa.

Meu avô Fernando, o guerreiro que me ensinou o valor da paz.

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Mas tem mais um velhinho nesta história que importa muito na minha vida. Meu outro avô, pai de minha mãe. Um piadista e gozador de primeira que te pega quando você menos espera. Homem simples e de um porte alto, magro, daqueles que não passa despercebido em uma multidão.

Vô Raulino é o mais velho de uma penca de irmãos. Em sua época, famílias numerosas não eram exceção, mas a regra. Minha bisavó ficou viúva muito cedo e ele teve que trabalhar para ajudar a criar os irmãos. A família, que já era pobre, ficou miserável.

Havia dias que a fome e a desnutrição eram tantas que meu avô comia terra e lascas de paredes. Ele conta isto com um sorriso maroto nos lábios e as pontas dos dedos unidas perto deles em sinal de aprovação degustativa: “Aquilo era gostoso, gostooooso!”. Mas o brilho nos olhos dele não engana quanto ao sofrimento passado. E, ainda assim, este mesmo brilho me desafia a censurá-lo por isto, é um brilho que claro me diz: “antes eu comer a terra do que a terra me comer. Eu sou um sobrevivente”.

Meu avô é de uma região pesqueira, Araçatuba (em Santa Catarina, não a de São Paulo). Também açoriana, claro – açorianos têm uma relação especial com o mar e com a pesca. Logo, vô Raulino é o maior entendido em laços e nós de marinheiro da família. Quando eu era criança pequena, antes mesmo de entrar para a escola, era viciada nas séries de ação que então dominavam as tarde televisivas dos anos 80. Frequentemente brincava de ser o MacGyver, o que significa que vivia dependurada em paredes e portas, além de treinar escapadas mirabolantes (já que desarmar bombas usando apenas chiclete e canudinhos estava fora das minhas capacidades). Uma tarde, meu avô estava tomando conta de mim e de meu irmão em casa. Perturbando-o de cinco em cinco segundos para que amarrasse meus pulsos com uma fralda do meu irmão, para então “escapar”. Com certeza em consideração a minha pouca idade, vô Raulino fazia um nó tão frouxo que acho que nem nó era. Eu me soltava mais rápido que um piscar de olhos, claro. E me vangloriava a cada vez. Então, meu avô cansou. Até hoje me lembro do sorriso travesso nos lábios dele (aquele sorriso que chega até o brilho nos olhos) e me amarrou os pulsos de verdade. Por mais que eu tentasse, não conseguia me soltar. Depois de muito tempo tentando sozinha (o orgulho doendo), pedi, muito humildemente, que ele me soltasse, por favor. Depois disso ele conseguiu assistir a sua televisão em paz, enfim.

Vô Raulino também era um faz-tudo de primeira linha. Eu devia acreditar que ele tinha superpoderes. Com madeira, então, não havia nada que com um serrote e alguns pregos ele não construísse, consertasse ou transformasse. E ele sempre se lançava a novos desafios, mesmo com o risco do resultado final não ser o que ele esperava. Lembro que foi com ele e com minha avó que entrei em contato pela primeira vez com os mistérios de plantar uma semente e a ver crescer e se transformar nas verduras e legumes que depois comíamos no almoço, tudo vindo do quintal de casa. Para mim, eles eram mágicos.

Vô Raulino não parou de ter uma vida dura, mesmo depois que ajudara a criar os irmãos. Casou, teve seis filhos que precisava sustentar. Trabalhou como simples operário, ganhando um salário pequeno que mal dava para tantas bocas. Minha avó lavava e passava roupas para ajudar nas despesas. Todos os filhos começaram a trabalhar cedo. Minha mãe e minhas tias, ainda crianças, faziam trabalhos domésticos em casas de família.

Mas esta vida batalhada não lhe tirou o bom humor, como já contei. Lembro que certa vez tive que fazer um trabalho de escola, no terceiro ano do primário. Tratava-se de uma árvore genealógica, onde precisávamos perguntar para nossos pais e avós quais eram os nomes dos pais deles e de que cidade eram. Eu sempre soube o nome de minha bisavó, porque a Dindinha (como a chamávamos) ainda era viva; portanto, cheguei a conhecê-la. Mas não sabia nada sobre o pai dele. Quando perguntei, ele me respondeu: “João”. Satisfeita, escrevi o nome na minha árvore. “Mas…”, continuou ele, “alguns o conheciam por Marco”. Um tanto hesitante, escrevi “Marco” ao lado de “João”. “Só que também era chamado de Marcolino”, acrescentou ele, para o meu horror. E assim foi continuando com José, Paulino, Bento, e tantos outros nomes. Desconfiei que tinha algo errado ali e tive vontade de perguntar se ele estava tirando sarro da minha cara. Mas não o fiz. Na ingênua idade de nove anos, tive medo de que ele me respondesse que não, e eu descobrisse que meu pobre avô, na verdade, não sabia o nome do próprio pai!

Quando minha professora viu aquela carreira de nomes no meu trabalho e perguntou se eu estava brincando, deveria ter respondido: “Não. Mas acho que meu avô estava. A senhora quer perguntar pra ele?”. Por que eu não ia fazer isto. De jeito nenhum.

Meu avô Raulino. O sobrevivente que me ensinou a persistência, a humildade e o valor de não me levar muito a sério nesta vida.

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Meu pai teve sua infância dividida entre a terra natal de nossos antepassados, em Capivari de Baixo, e em Criciúma, já na face mais “urbana” da família.

Meu avô Fernando e minha avó sempre deram muita importância aos estudos, então, deram o máximo de formação escolar que era possível aos seus filhos – o que não era muito, infelizmente. As mulheres formaram-se professoras (o curso de Magistério era o máximo a que podiam aspirar). Nem todas exerceram a profissão, mas desconfio que os conhecimentos foram aplicados com maestria no lidar com as crianças da família (só muita pedagogia para explicar como tantos rebeldes tomaram o rumo certo na vida).

Meu pai e mais dois irmãos foram estudar em seminários. Esta era a única forma de terem uma educação de qualidade com o pouco dinheiro que a família tinha. Acordava cedo, de madrugada, para seguir a rotina espartana da instituição. Com o sol nascendo, já estavam trabalhando na horta. Depois, a missa. Só então iam tomar o café da manhã.

Ele trabalhou em diversos empregos, inclusive como carteiro. Tomou sol e chuva em cima de uma bicicleta. Ingressou no curso técnico em contabilidade lá pelo início dos anos 70. Formou-se técnico em contabilidade em 1974 e exerce a profissão desde então.

Quando conheceu minha mãe e quis se casar, comprou um terreno leiloado da massa falida da Companhia de Mineração local. Mais tarde estas terras desmembradas em vários pequenos lotes se transformaria no que hoje é o bairro Próspera, em Criciúma. O salário do meu pai ia quase todo para as parcelas do terreno. “Quase” porque, como me contou, sobrava certinho o dinheiro para ônibus, casa-trabalho e trabalho-casa.

Herdou o gênio do pai, meu avô Fernando. Ser contrariado é algo difícil para ele e, para ser sincera, acho que este traço também está em mim. Mas isto é tão pequeno perto do carinho passado para a família que quase nem lembro disto. Ele era meu leitor de histórias quando era criança (na minha cabeça Chapeuzinho vermelho não teria um lobo com voz tão grave se não fosse por ele). Sua paciencia (quase) infinita ao ler repetidas vezes a mesma história para mim não teve preço (para plagear comercial de tv). Hoje sou uma leitora ávida, e a “culpa” é toda dele.

Seu amor não vacilou nem mesmo quando descobrimos que algo estava errado com o meu irmão. André ainda não falava quando as outras crianças já diziam frases inteiras na idade dele. O mundo ao seu redor lhe parecia indiferente. Com o tempo, ficou claro que era uma criança especial. O diagnóstico de autismo veio aos seis anos. Meu pai sempre esteve lá. Aguentou – e aguenta – a barra firme, levando André para todos os lados. Meu irmão nunca foi um deficiente escondido pela família. Meus pais nunca permitiram isto. Meu pai sempre encarou como se fosse a coisa mais normal do mundo (aliás, a palavra “normal” é dita com um certo sarcasmo na minha família).

É perfeccionista. Do tipo que ainda está tentando arranjar a melhor posição da antena de tv, para a melhor imagem, quando todo mundo já cansou e decidiu que é trabalho demais para pouca diversão. Mas não meu pai: para ele, desistir antes de alcançar o melhor possível é covardia. Lembro quando lhe contei sobre minha posição até-que-nada-má na lista dos aprovados no vestibular. Mal contendo o orgulho na voz, ele me disse: “Mas podia ser melhor”.

Até mesmo meu pai tem seus momentos cômicos. Quando cursava o Ensino Médio em escola estadual, só havia aulas noturnas, que terminavam lá pelas dez horas da noite. Preocupado com a minha segurança, meu pai a certa altura passou a ir me buscar de carro, apesar da escola ficar a apenas cinco minutos de distância e haver outros adolescentes que eram nossos vizinhos voltando pelo mesmo caminho. Certa noite, conversando com uma dessas vizinhas na saída da aula, vi o carro do meu pai e perguntei: “Quer uma carona?”. Ela disse que sim e, quando abri a porta do carro, lá estava meu pai, na direção… e de pijama! Não comentei nada, nem ela. Ao chegar em casa, comentei com o meu pai (com todo o jeito, ele não gosta de ser contrariado, lembra?) que fiquei encabulada da minha amiga ver meu pai de pijama. E ele respondeu, com a maior tranquilidade do mundo: “Ah, é? Achei que estava agradando…”. Acho que meu irmão não é único da família que é indiferente à opinião do resto do mundo.

Meu pai, o perfeccionista desconfiado que me ensinou o valor do amor. 

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Estes três formam meu ideal de homem. Procuro, procuro e procuro, mas não acho ninguém que reúna as qualidades deles. Mas não posso abrir mão da exigência. Fui mal-acostumada com estes altos padrões, fazer o quê?

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