Não, não é um conto saudosista sobre as brincadeiras de infância. Também não é  sobre as das crianças de hoje (ou a falta delas), embora acredite que o tema seja relevante. Trata-se de uma pergunta que saltou a minha boca diante de certos acontecimentos no cenário nacional.

Devo dizer que este texto ficou em gestação já há alguns dias. Em perplexidade, meu queixo caído custou a voltar ao lugar, enquanto minha mente repetia sem parar: “é claro que isto não é sério, só podem estar brincando”. O tempo foi passando, e nada de alguém aparecer de repente pela porta da frente e dizer que tudo não passou de uma pegadinha. Pelo contrário, mais gente entrou no jogo, sem se preocupar de me explicar – e para um monte de gente no país – de quê, afinal, estavam brincando.

Porque não pode ser da vida “de verdade” um deputado federal, eleito e reeleito nos últimos vinte anos, aparecer reiteradamente na TV em programas de rede nacional para dizer coisas como “basta bater no filho viadinho para ele se endireitar” (puxa, que profundo pedagogo!); “tenho saudades de gente como o Geisel, caras honestos” (agora gente honesta vira ditador, tortura e mata!); “estes vídeos com gays vão estimular nossos jovens a se tornarem homossexuais!” (pois é, minha senhora, a coisa é fácil assim: pela mesma lógica, basta a senhora colocar o seu filho homossexual na frente da televisão, vendo as cenas românticas e/ou hot da novela das oito, entre um homem e uma mulher, que a “propaganda hétero” vai influenciar o seu filho a virar “macho”!).

Ah, não. Conto o milagre, mas não digo o nome do santo. Se o objetivo deste senhor era publicidade, aqui não vai ter.

Achei que já havíamos superado esta fase das falsas verdades – e põe falsas nisto, de tão facilmente são desmascaradas – lá na época do “comunista que comia criancinha”. Quer dizer, nós brasileiros já passamos por isto, sofremos na carne. Como se não bastasse, está em qualquer aula de História, em vários filmes, pipocam documentários e depoimentos. Agora, lorota à custa do povo… de novo? Só pode ser piada.

Sem entender por qual razão Sua Excelência deputado finge que os últimos quarenta anos não passaram, o meu lado Willy Wonka reage, com um sorriso amarelo: “Hã… Você é tão estranho!”.

Vejamos agora outra “brincadeira”. Os vereadores de Niterói resolveram inovar em suas atribuições e fazer algo diferente daquilo pelo qual são pagos. Abrindo na pauta tempo para o que só pode ter sido o recreio de suas tão atribuladas atividades, a Câmara aprovou “moção de repúdio” a texto do Frei Betto. O que de tão horrível o frei disse? Ora, que não entende a causa de tanto furor religioso em torno da opção sexual das pessoas, quando a bíblia deixa claro que a intolerância e a exclusão não são condizentes com os desejos de Deus.

Tolerância, inclusão… ué, estes não são princípios da Constituição Federal? E a do Estado do Rio de Janeiro? A Lei Orgânica Municipal não deve dizer algo parecido? Resposta: é claro que sim. O texto do frei não fez mais do que reafirmar preceitos básicos da República Federativa do Brasil, só que usando argumentos religiosos. Os argumentos jurídicos que usaram os vereadores? Nenhum. Isto mesmo: nenhum. Eles só queriam discutir interpretações bíblicas… com o tempo e o dinheiro públicos!

Gostaria de dizer que este era o dia em que os filhos dos vereadores de Niterói “brincaram ser seus papais e mamães” e que foram eles que fizeram tudo isto, mas… temo que as crianças teriam sido mais coerentes, se fosse o caso.

Diante de uma Câmara que deveria discutir leis e que é formada por regras de Direito (não o canônico), mas se debruça sobre texto opinativo como se fosse a Santa Inquisição (que de santa não tinha nada), sinto-me como Dorothy, em O Mágico de Oz: “Totó, acho que não estamos mais no Kansas”. Nem no Brasil, que supostamente é um país com liberdade de expressão e um Estado laico.

Exemplo igualmente curioso é o comportamento de certa emissora de televisão, ligada a certo grupo religioso, que por sua vez sustenta certo membro clerical que virou parlamentar, ligado a partido político que travou verdadeira cruzada contra o kit anti-homofobia. Nas matérias desta emissora, só se encontram pessoas contra o material, só se fala com políticos que o reprovem, e as falas dos apoiadores são seguidas de balançares de cabeça negativos dos âncoras do jornal. O presidente da  ONG que confeccionou o material só aparece para reclamar do Ministro da Educação (ah, vai querer me convencer que ele não falou nada em defesa do material que ele mesmo ajudou a produzir?). Por fim, como punhalada final, veicula uma reportagem comemorando o fim do kit, apresentando os “heróis” do partido “X”.

Francamente, é de deixar no chinelo Rita Skeeter, a nada ética repórter da série Harry Potter. É um despudor ao enganar o público que daria inveja aos vilões fictícios.

Outra gente que gosta de brincar de jogos cujas regras eles mesmos inventam são os deputados estaduais do Rio de Janeiro. A última “traquinagem” foi que querem proibir os promotores das comarcas de postularem ações por improbidade administrativa (trocando em miúdos, processar políticos por administrar mal ou até mesmo roubar dinheiro público). Querem que somente o procurador geral do Estado (que trabalha na capital) possa fazer isto.

A desculpa – muito esfarrapada – do autor da proposta é que, longe das articulações e pressões locais, o procurador geral terá mais autonomia para investigar casos de improbidade e tranquilidade para postular judicialmente.

Esta é a mesma razão pela qual se criou o foro privilegiado de governadores e presidentes. Interesses políticos locais poderiam atrapalhar o julgamento de promotores e juízes, que se tornariam, então, instrumentos de perseguição contra os seus desafetos políticos. A regra vem do medo do uso do judiciário como forma de afastar políticos eleitos, usando-se factóides, como fora feito nos tempos da Ditadura Militar. Nem preciso dizer que funciona muito bem: protege os políticos que é uma maravilha. Gostaria de saber quem é que vai proteger o povo.

Se o promotor local, que está mais próximo dos acontecimentos e pessoas que fazem parte das atividades de improbidade, já encontra dificuldades em revelar as quadrinhas regionais, imagine-se o procurador geral, a quilômetros de distância e com o Estado inteiro para cuidar!

É nestas horas que um temperamento à moda Rainha Vermelha se apodera de mim: “Cortem as cabeças!”. Não sei do que estão brincando. Sinceramente, só sei que disto não quero brincar. E ó: estou de mal com vocês.

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