O caso da adolescente Fabíola Nava Ursolino, de dezesseis anos, morta pelo companheiro, Marciano Alves Soares, de trinta e três, foi mais um caso de violência contra a mulher dos tantos que se vê no país. E, também, uma tragédia anunciada. Alguns dos sinais estavam lá, para quem quisesse ver.

Não sou psicóloga ou socióloga. Mas em minha experiência profissional (como advogada) e em meus estudos sobre o tema, especialmente após a edição da Lei Maria da Penha (Lei n. 11.340/2006), consegui vislumbrar alguns padrões dos agressores domésticos e que quero compartilhar. Acredito que a discussão destes temas dentro das famílias possam ajudar a salvar vidas e a internet é uma ótima ferramenta para fazer as informações circularem. Estou fazendo estas notas sem rigor científico, baseada na experiência, mas indico como leitura do tema o livro da ex-desembargadora do Rio Grande do Sul, Maria Berenice Dias, “A Lei Maria da Penha na Justiça: a efetividade da Lei 11.340/2006 de combate à violência doméstica  e familiar contra a mulher”. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008.

Primeiramente, o agressor doméstico em geral tem um histórico de violência em sua própria família, uma infância onde a agressão contra pessoas mais frágeis do que o agressor (crianças, mulheres) era tida como corriqueira. Pode ser que ele mesmo tenha sido vítima de agressão no ambiente doméstico. Assim, torna-se um indivíduo que reproduz o comportamento vivido na infância no seu ambiente doméstico já adulto. Outro ponto é que o agressor pode apresentar uma baixa auto-estima (vinda ou não de um ambiente violento da infância) e procura na agressão doméstica uma “compensação”, um momento e lugar onde ele se sente mais forte e poderoso contra estes membros mais frágeis. Mas nem por isto se deve sentir pena do agressor e dar uma de “enfermeira apaixonada pelo paciente”. Se o homem tem traumas de infância ou problemas de auto-aceitação, que vá procurar um psicólogo! Não é sendo o “saco de pancada” do companheiro que a mulher vai ajudá-lo! Aliás, ela sequer é obrigada a ser o salva-vidas de ninguém.

Outro indício é que o agressor, justamente por se sentir inferiorizado, procura alguém frágil como companheira. Alguém que possa dominar não só físicamente, mas psicologicamente. Por isto meninas adolescentes, tão vulneráveis psicologicamente, são tão atrativas para estes agressores. Além da inexperiência de vida, as adolescentes estão passando por um período em que a própria auto-estima sofre – e as atenções de um homem experiente massageam o ego das meninas, tão frágil. Às vezes, há um fator a mais nesta baixa auto-estima da adolescente: é gordinha, ou magrinha demais, tem espinhas ou um nariz com um tamanho um pouco mais avantajado, etc. Coisas que aprendemos a aceitar na idade adulta, mas que se impõe como verdadeiras catástrofes na adolescência. Elas podem pensar que, se não ficarem com aquele homem, nenhum outro as aceitará. Ainda, coisas mais graves podem chamar a atenção do agressor doméstico: meninas que já venham de uma estrutura familiar corroída, de um ambiente já com violência e/ou descaso. E  elas, no afã de fugir desta situação, deixam-se iludir por este “amor” que “cai dos céus” e aceitam morar com o agressor, sem nem desconfiar que, longe de ter sido salva, acaba de cair em uma armadilha. Por todos estes fatores, que me perdoem os que tiverem objeções, mas não é natural que um homem de 33 anos se aproxime de uma garota de 16! A intenção de obter uma companheira frágil em relação a ele é gritante.

Ainda que eu tenha reservas quanto ao uso da palavra “natural” quando se trata de comportamento humano, neste caso me vejo obrigada a usá-la, até mesmo porque a palavra expressa com mais acerto o que quero transmitir. Realmente, um homem “saudável ” de 33 anos dificilmente verá algo atrativo em uma adolescente que não seja; a) seu corpo; b) sua fragilidade psicológica e c) os dois elementos anteriores juntos. Casos e casos há. Mas, leitora, não se apresse a achar que você e seu namorado são a exceção. Alías, “ouso” dizer não existe outra resposta para tal atração. E, às vezes, a distância de idade nem é tão longa. Veja-se o caso Eloá Pimentel, morta pelo ex-namorado Lidenberg Alves. Eloá estava com treze anos quando começou a namorar Lidenberg. Treze anos. E ele?  Dezoito. Cinco anos de diferença. Nesta idade, cinco anos é muito. A menina ainda está na fase do descobrir o mundo, tudo é diversão, são muitas opiniões contraditórias na cabeça. Não há verdadeira atenção com o que está acontecendo ao seu redor e muito menos ela tem condições de ver que o ciúme do namorado não é motivo de orgulho, sinal de amor, mas sim patologia.

Outro sinal claro é quando o companheiro afasta a mulher do contato com o mundo, especialmente de sua família. Ele a quer só para si, não quer que ela possa ter acesso a alguém que a liberte da prisão em que ele a mantém. Nem física nem psicologicamente falando. O agressor isola a vítima ao espaço doméstico, onde ele pode dominá-la. Nas poucas aparições públicas, é comum desmoralizá-la junto aos outros, tomando cuidado para manter a sua reputação de “cara legal”. Assim, caso alguma denúncia por parte da vítima ou de outros a respeito dos abusos sofridos dentro do lar, os parentes e vizinhos tenham a tendência a desconfiar da validade da palavra da agredida ou de quem a defende.

O agressor doméstico trata de minar a auto-estima da vítima. Diz que ela não vale nada, que ela é uma burra inútil. Que ela só consegue ou conseguirá advogados de “porta-de-cadeia” para ajudá-la, e por isto ele sempre vencerá. Reclama de tudo o que ela faz, sendo frequente alvo os afazeres domésticos (pois este, ainda, é a área socialmente direcionada à responsabilidade da mulher e, portanto, critério machista de avaliação da “boa esposa”). A comida dela é ruim, não sabe lavar direito as roupas. Os filhos não são bem tratados por ela, segundo o agressor. Ela é uma péssima mãe. Tudo isto é agressão psicológica, que deixa marcas ainda mais profundas do que as físicas.

Ah: as agressões físicas. Elas são resquícios de uma era muito antiga, do modelo tradicional de família (homem + mulher + filhos, como querem alguns conservadores da política) e, antigamente, o único modelo aceito. Neste modelo, o pai, que era o chefe da família, tinha o direito total sobre os demais membros, inclusive físico. Ele era o dono da mulher e dos filhos, tendo poder de vida e de morte. Como propriedade que eram, ele podia dispor deles do jeito que quisesse.

Não é preciso nem dizer que não é mais assim não é? O DIRETO não é mais assim. Quando o agressor diz que a culpada da agressão é a mulher, que o provocou (usando o conceito de que ele tinha o “dever” e o “direito” de bater) ele está exibindo mais um sinal do agressor doméstico.

Há ainda o uso dos filhos contra a esposa. O agressor ameaça tirar os filhos da vítima se ela o denunciar, o abandonar ou se simplesmente não fazer o que ele quer. Diz que ele tem emprego e ela não. Ou que ganha mais do que ela. Ou que tem mais escolaridade do que ela. Até as mentiras que ele espalhou para os conhecidos, na finalidade de isolá-la, ele usa. A mulher, com o psicológico já abalado (e, muitas vezes, infelizmente, já desacredita na justiça lenta e ineficiente), acredita nos argumentos, e suporta a vida dura… Até que um dos dois morra, geralmente, ela, mais uma vítima da sociedade machista, violenta e intolerante.

Anúncios